Burn baby burn
Nero está de volta. É assim que os jornais estão chamando o autor ou autores dos incêndios que há mais de dois meses vêm confundindo a polícia romana.
Desde junho, os vândalos destruíram 113 motos, 90 carros e duas lojas, agindo em todas as áreas da cidade, das superbacanas às mais barra-pesada. Na semana passada um jovem confessou ter tocado fogo em seis motos numa noite, e foi preso, mas na noite seguinte os incêndios continuaram. E ainda continuam. Será uma gang? Será um caso de loucura coletiva?
Como diria o Franz Ferdinand, this fire is out of control...



Meu bairro também foi atingido, ainda bem que minha fiel lambreta continua sã e salva.
Enquanto isso, na minha vida pessoal
Eu fiz trinta anos. Não existe uma forma mais branda de se dizer isso. É um fato, um fenômeno cronológico, una verdade universal que daqui pra frente vai aparecer nos meus documentos, no meu Orkut e, mais cedo ou mas tarde, na pele em volta das minhas pálpebras. A esta altura torna-se inevitável a famosa listinha das coisas que fiz e não fiz, o balanço pop, infantil e superficial desta primeira fase da vida que, oh baby, se fué definitivamente. Agora eu tenho uma teoria: entre os 25 e os 30 é importante dar um jeito na vida. Não se largar demais, tentar construir alguma coisa para o futuro. Mas uma vez nos trinta, está liberado o pânico. Seja bem-vinda a segunda adolescência, mesmo que a primeira tenha recém acabado de acabar. Afinal de contas, já fudeu tudo mesmo.
Então vamos pôr em ordem tudo o que

eu nunca:

- eu nunca fiquei grávida
- eu nunca terminei de ler Crime e castigo de Dostoevskij e temo que nunca vá terminar
- eu nunca pesei mais que 5 quilos acima do meu peso ideal
- eu nunca consegui virar vegetariana (é uma culpa recorrente)
- eu nunca aprendi a dirigir (mas a andar de lambreta sim)
- eu nunca pisei no consultório de um psicólogo, psiquiatra nem nada parecido e vou bem obrigada

o que eu ainda não:

- eu ainda não tenho condições de comprar um apartamento, não em Roma pelo menos
- eu ainda não me livrei de todos os complexos e inseguranças da adolescência
- eu ainda não tenho rugas
- eu ainda não visitei todos os lugares que quero conhecer
- eu ainda não descobri a qual nacionalidade pertenço

o que eu ainda, sim:

- eu ainda assisto desenhos animados
- eu ainda tomo leite com achocolatado em pó
- eu ainda tenho contato com amigos de infância
- eu ainda consigo escrever em português mesmo falando-o raramente
- eu ainda falo com cachorros (mas eles continuam não respondendo)
- eu ainda tenho vontade de esgoelar pessoas arrogantes e/ou tapadas
- eu ainda amo shows de rock, mas prefiro jantar com amigos do que me acabar em festas

o que eu não mais:

- eu não estou mais nem aí pro gosto musical dos meus amigos
- eu não consigo mais dormir 12 horas seguidas
- eu não consigo mais comer de tudo sem engordar
- eu não gosto mais de McDonald’s (por razões absolutamente não éticas nem ideológicas)
- eu não sou mais uma atrasada crônica, inclusive sou sempre a primeira a chegar


e o que eu já:

- eu já aprendi a me livrar das neuroses que atrapalham um relacionamento
- eu já aprendi a dividir o meu espaço com outra/s pessoa/s sem brigar por bobagem
- eu já aprendi a assumir responsabilidades
- eu já aprendi a cozinhar feijão
- eu já tive sarampo, rubéola e catapora



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