Lanche inflacionado
Quando eu era pequena adorava a chegada do inverno, porque começavam a aparecer pelas ruas os vendedores de caldarroste, castanhas assadas na brasa. Não é castanha de caju, é castanha européia, aquela que se usa para fazer marron glacê.



Eram uns velhinhos que ficavam nas esquinas, e tinha que tomar cuidado para não esbarrar neles sem querer e se queimar com as brasas ardentes. Um canudo de papelão cheio de castanhas custava mil liras, menos que um jornal ou um litro de leite. E ficar segurando as castanhas quentes era quase tão bom quanto comê-las. Oh. Quão bucólico.



Hoje as caldarroste continuam sendo vendidas no centro de Roma, mas o preço mínimo é de cinco euros, dez mil das velhas liras - e uns quinze reais, certo? Os velhinhos foram quase todos substituídos por imigrantes indianos, evidentemente explorados por um patrão.
Chega a passar a vontade. Melhor fazer em casa, no forninho elétrico, tomando um vinho.
Verdadeiro x Falso
Escrevi este texto por encomenda da Lea Beraldo, que o publicou no seu site Imigrantes Italianos. Muitos brasileiros ainda acham que a Itália de hoje é uma espécie de terra encantada, cheia de oportunidades. Mas a realidade não é bem assim.


Minha trajetória, entre o Brasil e a Itália, foi completamente diferente daquela da maioria dos brasileiros que vêm para a terra de seus antepassados. Eu nasci em Roma e, devido a uma série de circunstâncias familiares, quando tinha 13 anos fui morar no Brasil. Outros 13 anos mais tarde voltei a morar em Roma, e aqui permaneço, bastante satisfeita com o rumo que as coisas tomaram.

Uma história como a minha é, definitivamente, a exceção e não a regra. Além de ter sido alfabetizada em italiano antes que em português, conheço o jeito do povo, as pequenas diferenças nas relações sociais e pessoais. Fica tudo mais fácil.
Alguns brasileiros que conheço escolheram morar em Roma e hoje estão contentes com suas vidas e carreiras, mas existem outros, inúmeros, que se decepcionaram, e muito, com aquilo que a Itália lhes reservou.

Aqui não é a Inglaterra. Não existem empregos decentes sobrando e, ao contrário do que acontece nas ilhas britânicas, o salário dos chamados subempregos não compensa – NÃO COMPENSA – as horas de trabalho massacrante. Quando eu recém havia chegado, enquanto ainda fazia o curso de scrittura creativa, procurei uma vaga como garçonete.
Sem nenhuma experiência e ainda meio perdida na cidade, tentei mais de dez entre restaurantes e pubs.
Nunca passei do primeiro dia de trabalho. A concorrência é grande e sempre havia alguém que levava mais jeito que eu. Por sorte consegui um emprego temporário num escritório, por um mês, e depois cuidei de um estande de internet numa feira de fitness: minha tarefa era chutar os adolescentes para longe dos computadores, depois de meia hora de uso. Nada mal, mas para arrumar esse tipo de trabalho é indispensável ter toda a papelada em dia e falar italiano fluente. Quem aparenta ser uma estrangeira confusa e meio desesperada, perde a chance.

Vou direto ao assunto: não adianta vir para cá com uma mão na frente e a outra atrás.
É verdade que o povo italiano é acolhedor e amigável. Mas, nos últimos dez anos, o nível de solidariedade com quem vem de longe tem sido inversamente proporcional à quantidade de imigrantes, que chegam de todas as partes do mundo. E não está escrito em nenhum lugar que na Europa não existem picaretas.
Dizem que conselho só se dá a quem pede mas, se você me perguntar, eu diria que vir morar na Itália só convém quando se possui não apenas a cidadania, mas também um mínimo de conhecimento da língua e da cultura locais.
Melhor ainda, o ideal é vir com um projeto definido, um curso, um estágio, algo específico que se queira conhecer ou aprender. Ou então se você já tem amigos, parentes, enfim. A Itália tem muito a oferecer, seria uma pena desperdiça-lo com uma experiência ruim.
Tantas emoções
Meu amigo Fabio achou na casa dos pais dele uma velha coleção de vinis, 33 rpm. Entre eles desponta, além das fronteiras, a presença impagável do nosso rei Roberto. Essa pérola retrô é uma das musicas gravadas por Roberto Carlos, em italiano, nos anos 60. Para quem não sabe: naquela época ele fez um discreto sucesso por aqui, e até participou do tradicional festival de Sanremo.



A-mei a capa. E olha aquela ali atrás, que coisa incrível.



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